An Other Reality

Data: 2008
Número de Imagens: 12
Dimensões: 50 x 50 cm

Como ser que faz uso da razão para transferir conhecimento e atribuir uma representação mental àquilo que se conjuga em nosso redor, o Homem determinou uma figuração vocabular que decreta um termo definido para cada elemento que ocupa um determinado lugar dentro do espectro de luz, sendo este definido pelo comprimento da sua onda dentro da radiação electromagnética visível. A “cor”, como é designada, passou assim a definir-se com base na figuração mental que a nossa inteligência processa depois da nossa retina ter recebido essa onda de luz. Simplificando esta afirmação, temos que para cada comprimento de onda de luz, o ser-humano definiu uma palavra que serve para explicar a “cor” que dele resulta no seu cérebro.
Cada uma dessas palavras, porem, só pode ser incluída no nosso vocabulário pelo recurso ao exemplo. Não podemos explicar, por exemplo, por palavras, a um invisual aquilo que é o “vermelho”. E se partirmos de um princípio, já muitas vezes provado, que nos revela a diferença passível de existir entre os seres da mesma espécie, podemos deduzir que em determinados casos (não sendo estes necessáriamente a minoria), uma qualquer alteração em qualquer um dos sistemas referidos, pode levar um indivíduo a utilizar uma designação que não define a “cor” apreendida pela pessoa que a designou.
Temos por isso que o “azul” pode servir de designação ao “verde” de um determinado indivíduo, sendo esse “verde” o “azul” da pessoa que definiu essa cor.
No fundo, tudo não passa de uma questão de semântica. Mas sendo próprio da raça humana utilizar apenas a linguagem (neste caso verbal) para comunicar sensações e experiências, torna-se impossível prever se o “azul” a que todos chamamos de “azul” é igualmente figurado pela inteligência de cada um.
Esta série de fotografias surgiu com base na teoria que acima descrevo. Tem o propósito de figurar uma realidade que significa a interpretação do cérebro do outro. Tenta mostrar aquilo que pode ser uma outra realidade.
Como é óbvio, qualquer um de nós que olhe para estas imagens vai deparar-se com uma realidade falsificada. Nunca na natureza poderiamos deparar-nos com aquilo que elas apresentam, mas através da análise das mesmas, cada um de nós pode individualmente reflectir sobre este assunto, e talvez visualizar a sua realidade, vista pelos olhos de um seu qualquer semelhante. Estas imagens devem servir como um exemplo, mesmo depois de partirem do príncipio que nega a possibilidade de alguma vez eu poder explicar a outro a maneira como vejo a minha realidade. Em caso ultimo, porque apenas as palavras ou qualquer outro meio de comunicação (limitado) me podem ajudar nessa tarefa.
Não quero com isto dizer que o “vermelho” da nossa realidade, seja diferente sob diferentes circunstâncias – isso nunca poderia acontecer, já que a designação de “vermelho” está associada a um determinado comprimento de onda da radiação electromagnética passível de ser medido com ferramentas científicas. Em vez disso quero tentar mostrar que esse vermelho pode diferir na imagem que cada cérebro produz, com base num mesmo comprimento espectral.
Sendo isto verdade, talvez a diferença de gosto não se verifique quando, por exemplo, debato com alguém a preferência de determinada cor sobre outra. Na realidade posso estar a concordar com essa pessoa e a sua opinião, mas o único processo que poderia auxiliar-me nessa certeza, seria a utilização de um sistema visual e mental exactamente igual àquele que essa pessoa possui.
A ideia de que não podemos provar pelos meios actuais o facto de toda esta teoria poder estar correcta, é na realidade a mesma que me permite afirmar que ela pode realmente estar. E uma prova de que o nosso sistema visual, e a maneira como o nosso cérebro o processa, nem sempre é semelhante nos diferentes indivíduos, como no caso da anomalia (por ser diferente daquilo que é o comum) documentada no estudo do daltonismo, faz com que se possa acreditar que a realidade pode ser realmente uma outra daquela que julgamos conhecer.